PALAVRAS

AUTOBIOGRAFIA (1974)

nasci no Bexiga e lá me criaram,

por certo, um dia, eu virei “arquiteto”,

depois “professor”,

depois “cenógrafo”,

depois “pintor”.

desenho desde criança

o teatro me ensinou a vida;

a arquitetura o espaço,

o ensino a sinceridade,

a pintura a solidão.

o teatro me fez amigo da multidão

a arquitetura me fez amante da terra, da água, do ar, da lua, da cor,

da matéria, do fogo, do som.

o ensino me fez aluno da mansidão.

a pintura é meu diário, sem segredos, da peça que sou

atuante e autor.

pinto só o que sinto

pinto só o que vejo com todos os meus sentidos.

não pinto em vão, sonho com a hora de alguém sonhar junto, livre,

o que quiser, como quando reconhece num canto o

seu canto e canta.

pinto pra me acompanhar, no fantástico show que a vida me dá.

desde 1970 pinto mais constantemente,

arquiteto meu quarto dentro do quarto que moro (ele é calmo e claro)

arquiteto meu jardim sobre o piso de lajotas que alugo, barato.

Arquiteto meu sonho de uma arquitetura simples e clara,

e calma, com jardins de flores caipiras que, pelas estradas, não custa nada

a muda além de boa conversa e uns bons conselhos sobre a vida

da plantinha, quebradinha que espera na minha mão.

Ela não fica assustada. eu não mato, só planto.

e o que colho?

Ao longo do meu caminho, muitos agradecimentos, conselhos, bons tratos

de gente que gosta de gostar das coisas que a terra dá.

planto e colho prá plantar, prá rimar.

meu pai: Domingos Império

minha mãe : Helena Fausto

filhos de tantos italianos que no Brasil procuraram novo céu.

no Bexiga, 42 anos em dezembro, sob o mesmo céu

escolhido por meus avós.

“respirando o mesmo ar…”

Flávio Império

Trecho de poema publicado no Álbum Flávio Império,1974