ABSURDOS, OS DOZE TRABALHOS DE FLÉRSULES
(1984)

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  • REPERCUSSÃO (5/5)
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    Acacio R. Vallim Jr.
    O Estado de São Paulo
    06 de maio de 1984

    Acervo Flávio Império

    © Acacio R. Vallim Jr.

    Fonte de surpresas que peca pela fragmentação

    Absurdos pertence a uma categoria de espetáculo que alinhava quadros e situações sem ligação entre si. Apoiados na afirmativa de que a imaginação tudo permite (isso é verdade, sem dúvida alguma), Flávio Império e Suzana Yamauchi povoaram o palco do Teatro Municipal com uma série de imagens cuja única razão de ser é a fantasia. Nesse aspecto, Absurdos é uma fonte inesgotável de prazer e surpresa. A um enxame de abelhas pode-se seguir um grupo de astronautas à procura de uma pedra misteriosa, banhistas em roupas características ou então uma mulher-tarântula que mata seus parceiros. Tudo é possível e permitido.

    Raras vezes o Balé da Cidade de São Paulo apresentou um espetáculo tão dinâmico e bem estruturado. Absurdos reinstala no grupo o prazer de dançar. Cada intérprete, individualmente, consegue criar e expressar uma gama extensa de emoções e sentimentos. E o grupo, apesar dos desencontros naturais numa temporada de estréia, transmite uma alegria sincera e uma entrega ao trabalho contagiante.

    Por mais inteligente que seja em sua concepção e na capacidade de encantar o espectador com suas soluções mágicas, Absurdos deixa, no balanço final, uma sensação de frustração. A proposta de quadros criados impossibilita a apreensão do trabalho como uma unidade. Por um lado, Absurdos expressa com perfeição uma relidade fragmentada que coloca violência e lirismo num mesmo nível. Sob esse ponto de vista o trabalho é inquestionável. Da vida fazem parte, como mostra o espetáculo, tanto Gil Gomes quanto Erik Satie.

    Por outro lado, diante de tantos recursos bem usados, de uma coreografia que é nítida e construída com clareza, de um grupo de intérpretes excepcional (com destaque para Ana Maria Mondini em Tarântula e para Mônica Mion e Marcos Verzani como o casal de banhistas) e de efeitos técnicos usados com adequação, fica a vontade de uma obra que funcionasse como um todo e transmitisse uma unidade. Absurdos é uma peça fragmentada em excesso. Diante dela é sempre possível um comentário do tipo “gostei de tal trecho, não gostei daquele outro”. Talvez a insatisfação provocada por Absurdos venha do anseio de uma unidade impossível de, no momento, ser encontrada em obra de arte.

    ACACIO R. VALLIM JR.

    ABSURDOS, OS DOZE TRABALHOS DE FLÉRSULES
    (1984)